sexta-feira, 24 de abril de 2020

Ventos de Julho


               
Por Francisco Alves dos Santos Júnior

Vidraças tremem e uivam
Com o açoite dos ventos
Vindos do mar

O barulho das ondas
Quebrando na praia
E o uivo dos ventos
Assustam a cadela, que ladra e enrosca-se
Nas pernas da moça
Que reza baixinho
Pedindo aos santos
P’ros ventos cessarem.

A noite aprofunda-se
Os ventos aumentam
As ondas agigantam-se
E, assustadoramente,
Levam as palafitas
Invadem as ruas
Próximas do mar

O medo aumenta
Com a chegada da chuva
Chuva de vento
Que açoita e destrói
Encharca os morros
Que se desmoronam,
Matando e enterrando
Pobres e pobreza
Num quase alívio
De tanta miséria, de tanto sofrer.

Sob uma triste sinfonia
Do surdo dos trovões
Do uivo dos ventos
Do açoite das chuvas
Do clarão dos relâmpagos
Do silêncio das trevas da morte
Debaixo da lama
Debaixo das águas
Num quase alívio
De tanto sofrer.
       
Dedico esse poema a “Seu” Geraldo, pai do compositor-cantor Lenine, poema este que foi feito sob o impacto da notícia da sua morte. O “Seu” Geraldo, com quem tive o prazer de conviver por certo tempo,  era um homem dedicado aos pobres e ao aprimoramento dos seres humanos.
E hoje é um dia de muito vento e muita chuva na cidade do Recife-PE, vindos certamente para levá-lo, com maior rapidez e suavidade, para um mundo melhor.

Este poema  foi pubilicado em um dos números da Revista "Argumento" da AJUFE - Associação dos  Juízes Federais do Brasil.

Recife,  Praia de Boa Viagem, em 16.07.2015

O RETORNO

Por Francisco Alves dos Santos Júnior

             
Já era noite, quando chegamos,
Depois de muitos dias  de viagem.
Corri ao janelão,
Abri as vidraças
E senti no rosto a tua brisa morna e cheirosa,
O barulho das tuas ondas,
O brilho da luz da lua nas tuas águas,
O farfalhar das folhas dos teus coqueiros,
O som longínquo e triste de um violão apaixonado.
E revi as luminárias da tua Avenida e da tua Pracinha
E as pessoas correndo no teu calçadão.

Quero amanhã sentir o calor do teu sol,
O acariciar das tuas areias nos meus pés,
A mornidão das tuas águas
E ouvir o grito do vendedor de picolés, de salada de frutas, 

Ah como quero!

Minha linda Praia de Boa Viagem.
  


Recife, 06.01.2018, 23,03 horas.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Indiferença


Olho
E não vejo
Passo hirto.
Ele, ela, eles, humanos.
Alguns dormem(anestesiados pelo crak?)
sob as marquises.
Outros estendem as mãos e murmuram algo.
Não são ouvidos.
Já fazem parte da paisagem urbana brasileira.
Será por isso que não são mais notados?
Olho, passo e não vejo.
E você?

Recife, 12.03.2020, após um passeio pelas Ruas do Recife. 

sábado, 16 de maio de 2015

SINTO

            Francisco Alves dos Santos Jr  

O seu cheiro,

O seu perfume,

O calor do seu corpo trêmulo,

A sua maciez rígida,

Os seus lábios finos,

O seu gozo úmido,

O latejar do prazer,

A languidez,

O esmorecimento,

O sono suave.

 

Recife, 16.05.2015

sábado, 9 de maio de 2015

Agonia. Sertão.



Por  Francisco Alves dos Santos Jr



Sem chuvas ,

estrada barrenta,

O cavalo do Feitor levanta poeira.

O gado magro passa lentamente,

ruminando  no aboio triste do vaqueiro.

Casa de taipa.

A mulher, da janela, olha desesperançada.

O seu filho, de ossos a vista, puxa sua saia,

pede de comer.

Não há nada na panela

O sol, vagarosamente, se vai.

A noite chega.

 Os bezerros, separados das mães, berram em vão,

 o leite é para o filho do patrão.

Uma esperançosa nuvem se forma ao longe.

Ouve-se o zurrar do burro;  uma jaracuçu foge pelo mato seco.

Delgada lua minguante passa ao longe.

 

Recife, 08.05.2015, 20:33h.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Solidão





Por Francisco Alves dos Santos Jr.

Aqui em casa, todos viajaram neste dia do trabalhador de 2015, menos eu e a nossa cadelinha Frida[1], uma simpática e amorosa espécie da raça shitzu. Depois do nosso rotineiro passeio, retornamos ao apartamento. Sentei-me na minha cadeira de balanço e a Frida deitou-se aos meus pés. Tomei o clássico “Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo” de René David e dele li alguns trechos. De repente, quando o sol estava se pondo, senti uma solidão insuportável e “ouvi” um silêncio que me permitia sentir o quase inaudível barulho da queda dos poucos fios de cabelos que me restam e o farfalhar da cauda da Frida. Da minha cadeira de balanço, próximo ao janelão da varanda do 13º andar,  dava para ver o intenso balanço das ondas do mar da praia de Boa Viagem, a menos de meio quarteirão de distância. Resolvi então “fugir” da solidão e fui dar uma caminhada no calçadão da beira-mar. Aliviei-me com a brisa morna e suave que soprava, com a explosão de incontida alegria das pessoas que ali estavam, uns simplesmente, como eu, andando, outros correndo ou conversando alegremente e muitos jogando vôlei ou futebol nas areias da praia, aproveitando a maré baixa, pois quando alta já não resta areia. Caminhei por uns dois quilômetros,  tomei um leite com café e tapioca na Padaria Boa Viagem, comprei salgados de queijo, alguns pães,  e voltei. Sentei-me novamente, com o computar no colo, televisão ligada no noticiário, e escrevi este desabafo.


[1] Tributo à Frida Kahol, revolucionária pintora mexicana.

sábado, 8 de novembro de 2014

No Bar Redondo


   Por Francisco Alves dos Santos Júnior

   Corria o ano de 1977. A ditadura militar brasileira estava no seu auge. João e colegas, amigos da faculdade de direito, costumavam encontrar-se no bar Redondo, na esquina da Av. Ipiranga com Av. Consolação, na capital paulista, para jogar conversa fora e, se desse sorte, arranjar alguma garota para um sexo casual. Naquela noite, fazia parte do bate-papo Marta, uma garota que estudava jornalismo na USP. Era manca da perna direita e estava afim de Pedro, que se fazia de desentendido, ao que parece por preconceito, pois estava na frente dos amigos e não queria mostrar que saia com uma garota que mancava. João notou que ela queria mudar do assunto, que girava sobre política e economia. Conseguiu puxar para assuntos relativos a sentimentos e relacionamentos entre homem e mulher. Carlos, o mais jovem do grupo, ainda calouro, recém-chegado do interior, esfregava as mãos de contentamento. E Marta, muito descontraidamente, dizia que quando sentia tesão por alguém continuava com esse tesão até chegar em casa ou no local da transa. Carlos, rindo nervosamente e com o rosto vermelho, aumentou o movimento do esfregar das mãos e parecia que queria acender um cigarro com a fricção. E Pedro, para quem Marta olhava insistentemente, desconversava. João entrou no papo e, já um tanto interessado, perguntou se o cara com quem ela estivesse afim não correspondesse o que ocorria com o seu tesão. Marta, sem qualquer constrangimento e sem titubear, respondeu “azar dele, porque saio com o que me der bola”. João fez mais perguntas e Marta respondeu todas na bucha. Pedro, meio sem jeito, puxou uma conversa paralela com Carlos, e João aproveitou para alongar a conversa com Marta. Ficaram até tarde da noite e depois de várias cervejas resolveram ir embora. Pedro e Carlos seguiram no mesmo sentido, moravam por ali, numa repúbica. João ofereceu-se para levar Marta até o ponto de ônibus e naquela noite João não dormiu na casa do estudante, onde morava. 

Recife, Boa Viagem, em 01.11.2014, às 17:45h.