quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O ENCONTRO

Por Francisco Alves dos Santos Júnior 


Naquela tarde

Depois das nuvens escuras

Da chuva forte

Do escoar das águas

Quando tudo serenara

Nos encontramos.

Lábios, bocas, línguas

Num frenesi incontrolável

Numa explosão de excitação

E prazer, 

Naquela tarde,

Quando tudo serenara.

E a noite se aproximava.


Recife, 18.11.2020

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A OPERADORA DA NOVA LIVRARIA

Por Francisco Alves dos Santos Júnior

À noitinha de 03/11/2020, fui ao Shopping Recife e constatei que no lugar da Livraria Saraiva, que deixou de funcionar há algum tempo, foi aberta outra livraria, com o apropriado nome de "Leitura". Entrei lentamente, senti um forte e agradável cheiro de madeira nova, vindo das suas gigantescas prateleiras,mesclado com o mais agradável ainda cheiro de livros novos, arrumados tanto nas prateleiras, como em enormes balcões espalhados por todos os lados e em gôndolas paralelas ao longo do seu gigantesco espaço. Dei uma olhada geral e dirigi-me a uma vendedora que estava no teclado de um computador. Indaguei-lhe se teria o livro "Nós" e informei-lhe que havia esquecido o nome do Autor. Havia sido indicado pelo colega Frederico Koehler, na sua página do Facebook. A jovem vendedora(que agora é tratada por "operadora") pensou um pouco e com precisão disse-me sorrisinho"Zamiátin. O senhor gosta de distopia, eu adoro" e antes que eu falasse alguma coisa saiu, rapidamente, foi a uma das gigantescas prateleiras, próxima do lado direito da entrada da loja, e trouxe-me o exemplar, já explicando quase tudo sobre o livro e que custava R$ 69,00. Fiquei impressionado e indaguei-lhe se era estudante de Letras, ela disparou a falar que fizera até o segundo ano de engenharia química, mas passara a estudar letras há uns três anos e fora selecionada há pouco para ser operadora "nesta nova livraria". Havia orgulho no seu falar e nos seus olhos, escondidos atrás das lentes dos seu óculos. Não sei por qual motivo, talvez o cheiro dos livros, talvez a sabedoria esperançosa daquela jovem, meus olhos encheram-se de lágrimas, tomei das suas mãos o exemplar do livro, agradeci e fui ao Caixa pagar.

Raimundo Alves, Graciliano Santos e outras 47 pessoas
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terça-feira, 11 de agosto de 2020

Desespero


   Por Francisco Alves dos Santos Júnior        
       
Confusos sonhos atormentam-me.

Nuvens negras, 
Cheias de miséria, fome e dor,
Das quais fugimos aos milhares,
Nos perseguem.

E,
Na fuga desesperada, 
Damos de encontro com uma enorme cerca
De arame farpado,

Depois dela,
Guardas violentos dominam e,
Quando não matam,
Fazem voltar os poucos que, 
Feridos, rasgados, 
Conseguem ultrapassá-la.

E aquelas nuvens negras aproximam-se,
Cheias de miséria, fome e dor.

Os Guardas,
Branquicelos, de rostos macilentos, sem vida, 
Riem sarcasticamente.


Recife, 11.08.2020, umas duas horas depois de ver o filme ADÚ.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

MOMENTO


Por Francisco Alves dos Santos Júnior


ABRA A JANELA
DEIXA O SOL ENTRAR,
O VENTO
E O BARULHO DO MAR.
E VEM CÁ
DÁ-ME UM BEIJO.
FAZ-ME UM ACONCHEGO,
COM ESTE TEU SORRISO LINDO,
ESTE TEU JEITO DE OLHAR. 

Recife, 12.06.2020, dia dos namorados, 10h30h.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

ANGÚSTIA


      Por Francisco Alves dos Santos Júnior

Tarde cinzenta, coberta de tênue nevoeiro.
Ventos fortes sopram do oceano atlântico,
Com finos pingos d’água que se chocam com as vidraças das janelas.
Incertezas pairam no ar.
Uma angústia se me atormenta, 
Nestes tempos estranhos
De guerra viral entre as grandes nações.
Mendigos, sem rumo, aguardam esmolas nas calçadas.
Governantes exageram nos gastos públicos
E forram-se com as verbas governamentais.
Tempos estranhos e tão angustiantes como a certeza da morte.


Recife,05.06.2020, num final de tarde chuvoso.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

INSONIA.

Faz silêncio, 
Na noite adentro, sinto sua falta mais fortemente.  
E, cansado, 
Vejo o  dia nascer.




INSOMNIA

It is silent,
into the night, I miss you more strongly. And, tired, I watch the day rise.

domingo, 31 de maio de 2020

LEMBRANÇAS

Por Francisco Alves dos Santos Júnior

Hoje, lembrei-me de uma triste cena que presenciei no primeiro ano da faculdade de direito da USP: um dia, quando o Professor Limongi França, titular da cadeira de Direito Civil, chegou com os seus dois Professores Assistentes na sala da nossa classe, o Bedel, que era bem jovem e de cujo nome não recordo, estava sentado na mesa dos Professores, bem na cadeira do tal Professor, terminando de preencher o grande livro de presença dos alunos. Lá da porta de entrada da sala, o Professor Limongi, em alto e bom som. apontando para o Bedel, praticamente gritou:
- quem deu ordem para você sentar-se na minha cadeira? Como diz o ditado popular "cada macaco no seu galho!".
O constrangimento foi geral. Nós todos, alunos novatos, embora atônitos, nos acovardamos e não tivemos coragem de nos rebelar contra aquela grosseira injustiça, e ficamos silentes.
Na época eu ainda não conhecia o poema "Para Aqueles que Virão Depois de Nós" do grande B. Brecht, onde tem um verso que diz mais ou menos o seguinte "a cólera da injustiça faz a voz ficar rouca". Naquele momento, o medo impediu que nossas vozes ficassem roucas diante daquela colérica e bárbara grosseria, ocorrida sob as seculares paredes daquele templo de Justiça e de Liberdade, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Ainda joje, 45 anos depois, tenho raiva de mim porque, naquele momento, não reagi à altura.
E que Deus se apiede da alma do Professor Limongi França, já falecida, por aquela sua grosseria gratuita e raivosa contra um simples e educado Bedel.